Até junho, Praia do Pepê deverá estar adaptada para a prática do kitesurfe e ganhar um novo nome

Até junho, Praia do Pepê deverá estar adaptada para a prática do kitesurfe e ganhar um novo nome

Projeto pretende revitalizar a área e torná-la referência para o esporte

Ponto de encontro dos craques do futebol, por muito tempo a Praia do Pepê foi famosa pelo futevôlei. Mas é um projeto acalentado há 15 anos pelos praticantes de kitesurfe que está prestes a mudar a paisagem deste trecho da orla da Barra da Tijuca. A única área da cidade onde a prática do esporte radical é permitida pela prefeitura receberá uma série de intervenções nos próximos meses, como revitalização dos quiosques, padronização das guarderias, renovação da sinalização, presença de agentes orientadores e até mesmo um novo nome, segundo a Superintendência Regional da Barra da Tijuca: passará a se chamar Praia do Pepê e do Kitesurfe.

A proposta foi da Associação Brasileira de Kitesurfe (ABK). A entidade considera que no local há o segundo melhor vento para a prática do esporte no Brasil e que as mudanças podem alavancar o potencial da região para o turismo de aventura. A iniciativa foi encampada pelo superintendente da Barra, Thiago Barcellos, que aguarda a finalização do projeto, prevista para maio. A partir de então, acredita, bastará mais um mês para que esteja tudo implementado, sem utilização de dinheiro público.

— Por muito tempo, a relação entre os praticantes de kitesurfe e os banhistas foi conflituosa, mas isso acabou na Praia do Pepê. Como há uma restrição e hoje a modalidade só pode ser praticada ali, queremos criar um ambiente propício, com toda a infraestrutura necessária, até porque isso se reflete no ordenamento da região e não atrapalha quem vai tomar banho de mar. Já havia normas estabelecendo isso, mas elas nunca foram cumpridas. Agora estamos abraçando o kitesurfe como parte da vocação natural da região — afirma.

Gestor da ABK no Rio, Marcelo Cunha foi o primeiro campeão brasileiro da modalidade, em 2001, e é dono da escolinha Kite Point Rio, no Pepê, que abriga outros dois estabelecimentos do gênero. Ele participou de um projeto semelhante que criou infraestrutura para o esporte em toda a orla do Ceará e explica os avanços.

— Com essas mudanças, teremos condições para receber os turistas de modo decente, porque o que há hoje não é adequado, moderno ou confortável. Vamos sinalizar as áreas de decolagem e pouso, informar os banhistas sobre as particularidades da modalidade e proporcionar as condições necessárias para que os praticantes possam montar e desmontar seus equipamentos com conforto e segurança — analisa.

Desde 2001, um decreto editado pela prefeitura limitava a área para a prática do kitesurfe entre os postos 1 e 2 da Praia do Pepê. Em março do ano passado, a faixa foi ampliada, na altura do Clássico Beach Club, outra vitória política dos praticantes.

Graças a um pedido do superintendente Thiago Barcellos, as ideias se transformaram em um projeto, encomendado ao arquiteto Rogério Gomes pela concessionária Orla Rio, responsável pela exploração dos quiosques. Vice-presidente da empresa, João Marcello Barreto explica que a proposta aguarda apenas um parecer da Secretaria municipal de Meio Ambiente e Conservação (Seconserma), que pode exigir ajustes.

— Temos três quiosques na Praia do Pepê, e os operadores deles são também as pessoas que fomentam a prática do kitesurfe no local. A iniciativa acontece em nossa área de concessão e tem um grande potencial turístico; então, temos todo interesse de participar disso. Uma novidade do projeto é que ele propõe a adoção, em um limite ainda a ser definido, de uma área verde por parte dos operadores do kitesurfe — afirma.

Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH-RJ), aprova a iniciativa.

— Os esportes radicais têm a cara do Rio. O Pepê é muito identificado com o kitesurfe, que tem também todo um apelo visual. Mesmo quem não pratica gosta de ver. Precisamos de ações como essa para consolidar a Barra como destino turístico — analisa.

PELA PAZ ENTRE BANHISTAS E ATLETAS

Apesar da opinião do superintendente da Barra, Thiago Barcellos, donos dos quiosques e kitesurfistas dizem que, principalmente no verão, ainda há muitos problemas na convivência com banhistas. Os momentos mais sensíveis são os de pouso e decolagem, por causa do tamanho do equipamento. Somente as barras (fios) do kitesurfe têm entre 22 metros e 24 metros. Administrador do Clássico Beach Club, Leandro Seixas explica que as maiores dificuldades são na areia.

— É preciso ter uma grande área livre para montar e desmontar o equipamento e subir a pipa. O esporte cresceu muito; a gente precisa de mais estrutura — diz. — Sinalização é urgente também, além de um posto de salvamento avançado.

Francisco Ferreiro, mais conhecido como Frajola, dono do quiosque K8, é outro que defende uma área maior:

— Espaço, já temos por decreto; queremos aumentá-lo e ter condições melhores.

A mediação entre praticantes, donos de quiosques e banhistas acontece há cerca de dois meses. Representantes de todos os grupos vêm se encontrando com secretários e o superintendente a fim de chegar a um projeto definitivo. O uso do jet-ski para salvamento é um dos assuntos em pauta, segundo Victor Gioranelli, instrutor do Kite Point Rio:

— A Marinha só permite o uso do bote. Mas o ideal é o jet-ski para casos de resgate. Pedimos à Capitania dos Portos essa autorização.

Os três clubes da praia especializados em kitesurfe oferecem instrutores, além de escolinhas. Em média, um aluno só fica sozinho na água depois de dez horas de aula.

— Muito amador começou a dar aula. A Associação Brasileira de Kitesurf dá capacitação a instrutores, e queremos ampliar esse serviço — explica Gioranelli.

Para ele, a área de kite deveria ser isolada:

— O melhor é não ter banhista algum. Só pedimos 200 metros de área livre. O Brasil tem muita representatividade no esporte em âmbito mundial; é importante treinar e formar talentos.

Presidente da AMAR – Associação dos Moradores e Amigos do Tijucamar e Jardim Oceânico, Luiz Igrejas discorda:

— O esporte precisa ser estimulado, até porque o Rio precisa atrair turistas, mas não podemos alijar os banhistas. Deve-se conciliar os interesses.

Um dos representantes do país no circuito mundial, o catarinense Sebastian Ribeiro costuma surfar no Pepê no verão e já observou as dificuldades de convivência:

— Por ter mais experiência, consigo evitar problemas. No kite, estamos sujeitos ao vento e a outros fatores externos. Em Florianópolis, onde não há um trecho delimitado para a prática, há muitos acidentes.

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Fonte: O Globo-Rio

Rio, 27 de abril de 2017.

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