Moradores debatem soluções para população de rua na Barra e Recreio

Moradores debatem soluções para população de rua na Barra e Recreio

A população de rua é um problema comum à maioria das grandes metrópoles do mundo. Numa cidade historicamente desigual como o Rio, a convivência com pessoas nessa situação é quase banalizada. Na Barra e no Recreio, porém, a situação vem se agravando: moradores, líderes comunitários, estudiosos e voluntários que fazem acolhimento afirmam que o número de pessoas vivendo precariamente em ruas e praças aumentou recentemente, talvez em consequência da crise econômica e do fim de milhares de postos de trabalho na área da construção civil, com a conclusão das obras olímpicas.

Basta circular pelo Jardim Oceânico para constatar esta realidade. Principalmente, por vias movimentadas como as avenidas Olegário Maciel e Gilberto Amado. Na Av. Olegário Maciel, a marquise das Lojas Americanas costuma servir de proteção contra a chuva e o frio para moradores de rua. E o espaço em frente à loja Alan Motors tornou-se uma casa improvisada para dezenas deles. Presidente da AMAR – Associação dos Moradores e Amigos do Tijucamar e Jardim Oceânico – Luiz Igrejas acha que a região é atrativa para a população de rua por causa da grande quantidade de restaurantes.

Nos últimos meses houve um crescimento vertiginoso da população de rua por aqui, e a assistência social não aparece. Eles criam casas na Olegário, que é um polo gastronômico. E também há muitos terrenos vazios nos arredores que acabam ocupados — afirma Igrejas, que reivindica o aumento do patrulhamento na região. — Sei que esse problema não deveria ser tratado pela polícia, mas é preciso acalmar a comunidade, pelo menos para aumentar a sensação de segurança.

Funcionário da loja Alan Motors, Diego Lima diz que a situação piorou há cerca de um ano:

Antes só umas cinco pessoas ficavam aqui em frente, agora chegam a ser mais de 20. Só que não temos muito o que fazer, porque eles só vêm quando a loja está fechada. O estado é que deveria agir.

No Parque das Rosas, moradores também afirmam que aumentou o número de pedintes. Presidente do 31º Conselho Comunitário de Segurança, Ricardo Magalhães diz que o tema costuma ser discutido nas reuniões da entidade, e que vai pedir ajuda da prefeitura para viabilizar ações de acolhimento:

Tudo tem que ser feito com cuidado e orientação, se não eles saem (dos abrigos municipais) e voltam para o lugar onde estavam. O número de moradores de rua tem aumentado bastante, e com a situação econômica do país e do estado, o problema só tende a piorar.

Se o panorama está claro no Jardim Oceânico, no Parque das Rosas e em outras áreas da região, a solução para o problema não é tão simples. A equipe do jornal o GLOBO-Barra esteve em diversas delas e não ouviu relatos de roubos relacionados aos sem-teto. Mas, ainda assim, a situação costuma gerar reclamações.

SOCIÓLOGO: CRISE NÃO É A CAUSA

Comandante do 31º BPM, o coronel Sergio Schalioni diz que a situação dos moradores de rua não é caso de polícia, mas que a patrulha está atenta a casos suspeitos nas ruas:

Se há dúvidas em relação às intenções do morador de rua, ele é abordado para checar se tem antecedentes criminais ou mandado de prisão expedido, bem como posse de arma ou droga.

Uma medida defendida por Ricardo Magalhães é a ocupação de espaços ociosos, como terrenos embaixo de viadutos. Há alguns anos, a Associação Bosque do Marapendi (ABM), da qual ele é vice-presidente, em parceria com a prefeitura, botou pedras embaixo das pontes próximas ao condomínio, como forma de evitar a presença de moradores de rua. Polêmica, a medida suscitou alguns protestos, mas Magalhães defende que a solução é boa:

Estive em Roma recentemente, e lá os espaços embaixo dos viadutos foram cedidos a associações de bairros. Acho que essas áreas podem ser úteis; a prefeitura podia fazer academias da terceira idade, por exemplo. Tem que haver uma engenharia voltada à segurança pública e patrimonial, com reforço da iluminação e ocupação de espaços.

O sociólogo Paulo Magalhães, que em 2013 viveu durante um mês com moradores de rua, para realizar uma pesquisa encomendada pela prefeitura, mostra-se reticente em associar crise econômica ao aumento de população de rua. Ele sustenta que a pessoa acaba em situação de rua quando há quebra total dos vínculos afetivos e familiares, mas não quando está desempregada, por exemplo. O que pode aumentar, diz, por causa da conjuntura econômica, é a mendicância.

O pedinte está na rua, mas não necessariamente vive na rua. Num momento de crise federal e estadual, acredito que essa situação aumente. Inclusive, acho que, com o fim dos restaurantes populares e a diminuição das políticas de transferência de renda, a mendicância deve aumentar — explica Magalhães, que também diz que o aumento de mobilidade na Barra e no Recreio pode contribuir para o crescimento da mendicância na região, mas não da população de rua, pois estes têm bases territoriais definidas na cidade.

Para além das ações do poder público, há pessoas que resolvem agir por iniciativa própria. É o caso de Vitor “Gato” Albuquerque, morador de Guaratiba, que realiza um trabalho com moradores de rua no Recreio e os ajuda a ir para abrigos. O seu envolvimento com o assunto vem de longa data. Seu pai, morto há 13 anos, vivia entre internações e as ruas por causa de um problema mental. Por algum tempo, ele tentou se afastar dessa realidade, mas há três anos criou o projeto “Fazer o bem sem olhar a quem”.

Em três anos levei 800 pessoas para abrigos, principalmente da Zona Oeste. Conheço quase todos da região; toda semana vou ao encontro deles, levo comida, converso. Também promovo eventos especiais; levo ao cinema, ao teatro. E gosto também de trazer pessoas ressocializadas para conversar com quem ainda está na rua, como forma de incentivo e inspiração. Muita gente me ajuda com doações que peço pelo Facebook para manter o projeto — explica Albuquerque, que também realiza rodas de oração com a população de rua.

Albuquerque confirma que o número de sem-tetos vagando pelo Recreio aumentou recentemente. Segundo ele, a ajuda que os moradores do bairro prestam aos necessitados seria um dos motivos. Por outro lado, ele diz que milicianos atuam para expulsar os sem-teto quando há uso de drogas ou atos considerados inconvenientes. Na semana passada, a equipe do jornal o GLOBO-Barra esteve na Praça Tim Maia, no Posto 12 do Recreio, onde dezenas de pessoas vivem acomodadas nos gramados. Apesar da presença de muitos colchões, só havia um morador na praça no momento. Segundo Albuquerque, esta pode ser uma evidência da ação de milicianos:

Provavelmente alguns “aprontaram” nos últimos dias e aí tiveram que ficar circulando pelas ruas. De noite eles voltam.

INICIATIVAS E PROJETOS DE RECUPERAÇÃO

No caso da Praia da Macumba, foi o próprio Albuquerque quem contribuiu para “esvaziar” o local. Há alguns meses, cerca de 20 pessoas viviam ali. Hoje, são apenas dois: Francisco Isaías Rodrigues e Sergio “Manchinha”. Isaías tem 33 anos e vive nas ruas do Rio há quatro, desde que chegou do Maranhão.

Ganho dinheiro limpando peixe por aqui. A prefeitura já me levou uma vez para um abrigo na Ilha do Governador, mas eu não quis ficar. Tinha muita gente usando crack; era um ambiente ruim — explica Isaías, que diz ter ganhado um terreno na Comunidade dos Palmares, em Vargem Pequena, para onde pretende se mudar.

Manchinha, de 35 anos, diz que não gosta de ficar muito tempo em um lugar só. Como o colega Isaías, ele também está na rua há quatro anos. Saiu de casa depois de brigar seriamente com a mulher.

Eu surtei, cheguei a roubar minha mulher para comprar droga. Mas um dia quero voltar a ter uma casa — diz Manchinha, que trabalhava como pedreiro e bombeiro hidráulico.

Albuquerque diz que as drogas e o álcool são as principais dificuldades no caminho de quem trabalha com moradores de rua. Na sua opinião, não adianta a prefeitura levar pessoas para os abrigos sem oferecer tratamento para o vício. Outro problema, diz, é tentar promover o retorno ao convívio da família:

É muito difícil a pessoa voltar para sua família; o mais fácil é ela começar uma vida nova. Às vezes, outro empecilho são brigas com bandidos das comunidades onde ela vivia, e aí não dá para voltar.

A irmã Maria Elci Zerma, fundadora da Associação Amigos de Betânia (Asab), que realiza trabalho de recuperação de população em situação de rua em suas duas unidades, na Freguesia e em Santíssimo, diz que o vício é um traço comum aos acolhidos. Entretanto, a dependência, que era exclusivamente do álcool em 1999, quando a casa foi criada, ainda no Alto da Boa Vista, hoje abrange muitas outras drogas.

Hoje vemos dependência de múltiplas drogas. O álcool continua sendo muito comum, mas também tem muita cocaína e crack. Tratamos ainda do tabagismo. O perfil dos moradores de rua mudou desde 1999. Hoje eles são mais jovens, numa faixa de 18 a 30 anos, e há alguns poucos acima de 40.

A Asab tem um contrato de convênio com a prefeitura, que paga a equipe de técnicos da casa. Há psicólogo, pedagogo e especialistas em dependência química, além de 40 voluntários trabalhando nas casas. A unidade da Freguesia tem 50 vagas e a de Santíssimo, 40. A maioria dos residentes chega pela central de acolhimento da prefeitura. Mas há também aqueles que procuram o lugar espontaneamente. O trabalho de recuperação dura, em média, nove meses, diz irmã Maria.

Queremos que eles saiam daqui com documentos, trabalho, moradia e saúde recuperada. O trabalho é árduo e o apoio vem muito da sociedade civil, com doações. Procuramos parcerias também. Temos voluntários que dão aulas de judô, ioga, artesanato e outras atividades. É raro a pessoas não ser recuperada em no máximo nove meses. No primeiro mês após o tratamento, eles ainda têm direito a morar aqui — diz a religiosa, que deixou Curitiba para começar o projeto social no Rio. — Cerca de 65% dos residentes não voltam para a rua, o que é um número alto, porque muita gente desiste no meio do caminho; não é fácil. Nós encaminhamos a maioria dos recuperados para trabalhar na construção civil ou em condomínios da região.

Outro ponto destacado pela religiosa é a ausência de casas de recuperação para deficientes, o que dificulta o auxílio aos moradores de rua. Apesar dos obstáculos, ela mantém o otimismo em relação ao seu trabalho, e não perde o bom humor.

Uma coisa que não mudou muito desde que comecei a acolher as pessoas é que elas continuam gostando dos jogos do Flamengo.

A Secretaria municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) informa que realiza diariamente o acolhimento de pessoas em situação de rua em todas as regiões da cidade, incluindo Barra e Recreio. As pessoas que concordam em ir para os abrigos são inseridas num método implantado em 2015, que visa a propiciar condições para o início de uma nova trajetória. Elas passam por avaliação médica, verificação de documentos, cursos de qualificação profissional e busca de emprego. As pessoas recuperadas, acrescenta, recebem oferta de estadia em hotel até conseguir residência própria.

Em relação aos abrigos, a pasta diz que tem 38 próprios e 24 conveniados, somando 2.177 vagas. Em 2013, a SMDS realizou um censo da população de rua, que apontou 5.580 pessoas nessa situação na cidade. Desses, 81,8% são homens e 69,6% têm entre 25 e 59 anos. O Centro da cidade é onde há mais moradores de rua, com 33,8% do total.

Fonte: O Globo-Barra

Rio, 24 de novembro de 2016.

Escrever Comentário

*

*

*Campos obrigatórios Por favor valide os campos obrigatórios